Thursday, May 7, 2009

Vós, mães...

Hoje, que o dia parece querer concentrar-se em nós

Que nos perdemos entre os ponteiros do relógio

Por querer o regresso do passado e imaginar tanto o futuro...

Hoje, não podemos esquecer-nos de vós...


Vós, mães, que nos trazeis sempre no colo

Vós donas do melhor abraço do mundo...

Vós, suaves como algodão doce em noites de festa na primavera...


Hoje, que o sol nos acordou cheios de sonhos e vontades

Que nos olhamos devagar para prolongar o nosso tempo

Que queremos alcançar o infinito...

Hoje, não podemos esquecer-nos de vós..


Vós, mães, sem as quais perderíamos o sorriso

Vós, donas do único olhar que nos alimenta

Vós, que nos guardais para sempre...


É para vós, mães, o nosso dia...

O nosso passado e o nosso futuro

Os nossos sonhos e vontades

O nosso tempo e o infinito...


É para vós, mães, o nosso olhar de meninos

Enquanto nos embalam e adormecem...


Hoje, que queremos ser e conseguir tudo

Não podemos esquecer-nos de vós...


Cristiana Afonso

Monday, March 23, 2009

Provérbio Chinês

Em tempos em que caminhava sobre o palco do meu teatro, a minha encenadora fez-me chegar isto:

"Assim como o rio se encaminha para o mar, o Homem sábio encaminha-se para o bom senso."

O provérbio é chinês e diz tudo.

Thursday, March 19, 2009

(meu) Senhor do Anel

Saí de casa. Soube bem levar com o calor dourado do Sol e sentir-me quente. Desta vez não reparei na paisagem à minha volta. O olhar quis guardar-se para o anel do fim de tarde...


Praça dos leões a cirandar de capas negras, embalada pelo eléctrico, cinzenta e matizada por mim e pelo Pedro na nossa mesa e na nossa conversa. Por nós e por mais umas quantas pessoas...

Passados alguns instantes, longos talvez, não sei porque me perdi nas horas com a conversa, veio um rapaz: sujo, roto e descosido, despenteado, de olhos pedintes e andar inferior, de voz turva...E foi então, sem indiferença à mão estendida, que lhe dei a moeda...dele. Ele ofereceu-me o anel. Foram os meus olhos que ficaram pedintes de mais gestos como aquele, fui eu que fiquei inferior, tal como o resto da gente, perante o anel torto, velho, largo, gasto, mas dele...que me estendeu a mão e a voz de súplica e que, no meio do seu nada, me deu muito mais do que eu a ele.


Guardei-o na bolsa interior da minha carteira...olhar para ele permitiu-me recordar com mais força o momento...

No outro dia ofereci-o, junto com a história que o fez chegar a mim, a uma amiga a quem precisei de aumentar o sorriso...E o anel ganhou novos sentidos, continua torto, velho, largo e gasto, mas guarda nele mais carinho e mais saudade do mendigo que o alojou no dedo...


Onde quer que estejas, meu senhor do anel, obrigada. Porque do teu andar inferior foste capaz de me fazer acreditar...em ti, em mim e no anel que representa o laço superior que há entre nós no meio do mundo...

Wednesday, March 4, 2009

...

Depois da desilusão do que ela lhe disse, percebeu, de uma forma que não desejava, que a fina capacidade de magoar os outros cresce na mesma medida que a incapacidade de assumir o erro, pedir desculpa e perdoar. E doeu quando se descobriu demasiado infantil para responder ao ataque, deixando antes que a atingisse e lhe baixasse o olhar.

É isto que a vida nos ensina?

Se crescer implica o desenvolvimento de uma segunda cara e aprender a não confiar, se implica saber atacar para ficar patamares acima do outro, então crescer é injusto. Tão injusto como o são todos aqueles que aceitam crescer assim.

Wednesday, January 14, 2009

Horizonte...

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte...
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa

Saturday, January 10, 2009

Yellow...

Pegou-me na mão e fez-me girar como uma bailarina

Os braços dele envolvem o corpo dela no meio de flores e folhas azuis de um cenário idílico. O azulejo do balcão do café pinta-se enquanto o chocolate quente lhe dança na boca.
A porta abre-se para a muralha, e fecha-se para a luz quente espelhada no chão e nas mesas de madeira, entre o cheiro de um café e de um whisky. E nos olhos da Clara e do Miguel estão as luzes e os reflexos da árvore de natal enorme e salpicada de enfeites, que protege as figuras do presépio.

- Miguel, já viste as prateleiras atrás do balcão? Estão cheias de garrafas que deixam cruzar os líquidos dourados...

- Oh Clara, continuas a mesma menina observadora, perdida entre o que vês e o que imaginas. Olha para mim, estás linda hoje...

Encostou-se para trás enquanto lhe sorvia o toque, deixou que ele a contemplasse linda, corou e quis voltar a reparar.

- Adoro quando me trazes aqui, e hoje gostei de ficar no andar de baixo, nunca tinha respirado esta parte do bar. Em cima é mais casinha de bonecas, com aqueles sofás de castelos de princesas e as cortinas nos cantinhos da janela. Não achas? Oh vá lá, sabes que sou incapaz de parar de olhar, sabes que gosto...Tens que me deixar inebriar-me e concentrar-me no espaço nos primeiros minutos, tens de me deixar sentir que faço parte dele...

- Sim...já sei minha Clarinha...A tua sorte é que nesses instantes posso sentir o teu brilho de olhos...Já podes voltar para mim?

- Só se te puder partilhar com este chocolate...

Interrompeu o jazz ao arrastar o banco, mas ficou mais perto dela e das nuvens. Já não se viam há muito tempo. Mas a Clara estava na mesma, linda, inteligente, perspicaz, sonhadora, encantada e encantadora.

- Não olhes assim para mim Miguel...Olha, tenho tanta coisa para te contar. Nem imaginas o que me aconteceu no outro dia...Posso contar?

- Pedes-me se podes contar com essa carinha de menina de quatro anos ansiosa com as novidades, é impossível dizer-te que não...Conta...

- Oh...Também não é bem assim...Pronto, vou contar...não resisto. Foi num domingo no Porto. Fui passear com a minha irmã para St.Catarina, estava cheia de músicos, de palhaços a moldar balões, de vendedores de castanhas, e havia um homem estátua...

O Homem vestia-se todo de branco e tinha uma máscara. Em cima de uma caixa, à altura de sonhos de crianças, observava imóvel o movimento envolvente da rua, enquanto esperava que caíssem moedas. Não resisti, já o tinha visto num outro dia, procurei a menina no olho por detrás da máscara e deixei cair a minha moeda. E a rua cheia ficou vazia. Ficou o homem estátua e a menina escondida nos olhos dele. Pegou-me na mão e fez-me girar como uma bailarina, sorriu atrás da máscara, fez-me uma festa e voltou a imobilizar-se enquanto eu recuperava o fôlego. E a rua encheu-se de novo de olhos pregados naquele momento.

- Foi mesmo bonito Miguel...Senti-me tão pequenina e soube-me tão bem...Queres provar o meu chocolate?