Saturday, January 10, 2009
Pegou-me na mão e fez-me girar como uma bailarina
A porta abre-se para a muralha, e fecha-se para a luz quente espelhada no chão e nas mesas de madeira, entre o cheiro de um café e de um whisky. E nos olhos da Clara e do Miguel estão as luzes e os reflexos da árvore de natal enorme e salpicada de enfeites, que protege as figuras do presépio.
- Miguel, já viste as prateleiras atrás do balcão? Estão cheias de garrafas que deixam cruzar os líquidos dourados...
- Oh Clara, continuas a mesma menina observadora, perdida entre o que vês e o que imaginas. Olha para mim, estás linda hoje...
Encostou-se para trás enquanto lhe sorvia o toque, deixou que ele a contemplasse linda, corou e quis voltar a reparar.
- Adoro quando me trazes aqui, e hoje gostei de ficar no andar de baixo, nunca tinha respirado esta parte do bar. Em cima é mais casinha de bonecas, com aqueles sofás de castelos de princesas e as cortinas nos cantinhos da janela. Não achas? Oh vá lá, sabes que sou incapaz de parar de olhar, sabes que gosto...Tens que me deixar inebriar-me e concentrar-me no espaço nos primeiros minutos, tens de me deixar sentir que faço parte dele...
- Sim...já sei minha Clarinha...A tua sorte é que nesses instantes posso sentir o teu brilho de olhos...Já podes voltar para mim?
- Só se te puder partilhar com este chocolate...
Interrompeu o jazz ao arrastar o banco, mas ficou mais perto dela e das nuvens. Já não se viam há muito tempo. Mas a Clara estava na mesma, linda, inteligente, perspicaz, sonhadora, encantada e encantadora.
- Não olhes assim para mim Miguel...Olha, tenho tanta coisa para te contar. Nem imaginas o que me aconteceu no outro dia...Posso contar?
- Pedes-me se podes contar com essa carinha de menina de quatro anos ansiosa com as novidades, é impossível dizer-te que não...Conta...
- Oh...Também não é bem assim...Pronto, vou contar...não resisto. Foi num domingo no Porto. Fui passear com a minha irmã para St.Catarina, estava cheia de músicos, de palhaços a moldar balões, de vendedores de castanhas, e havia um homem estátua...
O Homem vestia-se todo de branco e tinha uma máscara. Em cima de uma caixa, à altura de sonhos de crianças, observava imóvel o movimento envolvente da rua, enquanto esperava que caíssem moedas. Não resisti, já o tinha visto num outro dia, procurei a menina no olho por detrás da máscara e deixei cair a minha moeda. E a rua cheia ficou vazia. Ficou o homem estátua e a menina escondida nos olhos dele. Pegou-me na mão e fez-me girar como uma bailarina, sorriu atrás da máscara, fez-me uma festa e voltou a imobilizar-se enquanto eu recuperava o fôlego. E a rua encheu-se de novo de olhos pregados naquele momento.
- Foi mesmo bonito Miguel...Senti-me tão pequenina e soube-me tão bem...Queres provar o meu chocolate?
Wednesday, October 22, 2008
Nos olhos...as estrelas...
Sentada nos cartões que alguém reservou para os gatos, com as pernas tapadas até aos tornozelos, ela molhava-se...enquanto chovia. Pés de unhas negras, enormes; pés calejados, descalços, molhados. Chamou mais a minha atenção por ser aquela mulher e ter aquele olhar meigo e de loucura; por não pertencer ali mas ter o direito de pertencer ao mundo.
- Obrigada menina. Só estou aqui a fazer horas, à espera que abra o albergue, que agora não me deixam ir para lá.
- Ah....está bem...
- É é...às seis já abrem. São as cinco, agora, não é menina?
- Sim, são as 5h...
- Obrigada.
(avancei)
E gritou-me...
- Obrigada minha menina, obrigada.
Tem cabelo branco, muito sujo e apertado. Tem um lenço preto tingido de manchas e tem aquela praça que se faz deserta, em frente à faculdade. No dia seguinte, quando lhe demos o pão e o leite, chorou. Mas já não chovia.
- Onde dorme? Tem sítio para ficar?
- Durmo numa casa ali em baixo. Já me abrem a porta. Não digam a ninguém meninas.
Não quer camisolas vermelhas, azuis ou amarelas. Quer a cor mais próxima do luto que carrega.
- Esta camisola vou levá-la amanhã à igreja, porque cheira bem.
E agarrou-se a ela com carinho. Foi como se o Sol abrisse por entre as nuvens agitado pela luz daquele sorriso, foi como se o mundo fosse de cores suaves e sensações quentes. Foi como se fosse perfeito...
Gosto dela, velhinha deambulante.
Mas não gosto de imaginá-la sozinha na praça, no lugar dos gatos...Pelo menos não chove e guardadas nos olhos fechados tem as estrelas...
Sunday, June 1, 2008
“ Velhinha de cabelos compridos...”
Há dias em que apetece fazer tudo. Em que acordamos com a certeza de que vamos ser capazes, cheios de força, de vontade de vencer, de conseguir! Mas é nesses dias que a vontade se esvai à mesma velocidade com que apareceu. E mesmo depois de ter saído de casa e ser trespassado pelos primeiros raios de sol depois de dias de chuva, mesmo depois de ter partilhado sorrisos e comido batatas fritas com ketchup, de ter conversado com pessoas simples e simpáticas, cai-se na inércia...A inércia que transponho para este texto enquanto o escrevo e ao mesmo tempo penso no muito que tenho para fazer.
E de repente lembro-me do banco do lado esquerdo do autocarro e do velhinho que ia sentado à minha frente. “Sabia que vai envelhecer cedo menina?”
Na verdade eu desconhecia e sorri para disfarçar um ar incrédulo...E ele disse-me que era verdade, que o cabelo demasiado comprido favorecia o envelhecimento precoce, e que, aliás, isso estava escrito e explicado num livro de um autor qualquer, vendido numa livraria do Porto. Não fixei os nomes...
O segredo dele para aos 80 anos continuar ágil, saudável e feliz eram duas gotas de água oxigenada por dia. Bebe-as há muito tempo e tem sangue de rapaz novo, disse-lhe o médico!
Fui sorrindo, surpresa, mas deliciada com a simplicidade, simpatia e loucura (a minha) do momento. Senti todos os olhares do autocarro voltados para mim e para o meu cabelo, para o velho e para a sabedoria estranha dos seus 80 anos.
Saí do autocarro e decidi não cortar o cabelo. Gosto dele assim, e por agora quero deixá-lo comprido, até quando for velha...
À media que escrevo ganho nova vontade, vou guardá-la dentro de uma esfera de âmbar...não quero perdê-la. Faz-me falta, tal como me faz falta a vontade do meu pai e da minha mãe quando me seguram no colo, me abraçam e me chamam “minha pequenina.” Faz-me falta... ouvir o meu mano chamar-me kika e implorar-me por mais um jogo de xadrez; faz-me falta o olhar quente da minha avó a oferecer-me o melhor pão com queijo e marmelada, faz-me falta o cheiro da minha casa e o sol da minha rua.
Por mais velha de cabelos compridos que eu seja, vai-me sempre fazer falta...
Já agora, o velho de 80 anos sorriu para mim, criou um laço instantâneo comigo e eu senti-me feliz. São os meus pormenores, aqueles que guardo com carinho e que gosto de contar, porque é bom partilhar bocadinhos de felicidade.
Friday, April 25, 2008
(H) À conversa no Camarim...

Saí para ir ver “Conversas de Camarim”. A peça de Simone de Oliveira e Vítor de Sousa, com Nuno Feist ao piano. Fui em trabalho, para a Jornalismo Porto Rádio, entrevistei os actores, o público e os organizadores. Mas a experiência foi muito mais do que isso.
Foi o olhar rasgado sobre o palco e a sua essência. Foi a música, os poemas ao sabor do Vítor, as canções na voz da Simone. A sala estava cheia, nas cadeiras sentia-se o burburinho inicial, a surpresa, os risos, os aplausos...A noite correu através da conversa que os dois actores partilharam connosco. Foi bom. Foi aquele respirar profundo que nos enche a alma.
Eu fiquei sentada na primeira fila, vantagem de ser jornalista, embrenhei-me no calor do palco, arrepiei-me, deixei o coração acelerar com a beleza dos momentos. Depois, desci ao camarim, vantagem de ser jornalista, e conversei com a Simone e com o Vítor. De gravador na mão fiz perguntas de jornalista com emoção de admiradora...A Simone estava sentada em frente a um espelho inundado de luzes. Fumava e olhava-me através do verde dela...Fiquei nervosa, e depois do muito que tenho feito nem é habitual ficar nervosa assim, fico nervosa, mas passa-me com a rapidez com que passa a primeira pergunta...desta vez emocionei-me porque guardo a figura da Simone no imaginário, desde criança, porque me delicio a cada desfolhada, porque admiro a força com que encarou o cancro, porque vejo nela uma Mulher. Sem preconceitos, com verdade, com crenças, com carisma. Valeu muito a pena entrevistá-la e ouvi-la contar a estória que até já contou noutras entrevistas. O senhor da loja do Porto ofereceu-lhe as violetas por ela ser a Simone, ela recorda-o e reaviva com ele a paixão pelo Porto.
Hoje, também eu sou apaixonada por esta cidade de ritmos, de um cinzento colorido que me encanta.
Também eu recebo as minhas violetas quando passo...e sorrio à medida do tempo e das recordações. Sorrio a cada descoberta.
Um dia sei que vou ser jornalista, com o amor que já tenho ao facto de ir sê-lo. Por isso, guardo cada experiência que os trabalhos que já faço me proporcionam. Sou subjectiva, porque sou eu, procuro não a objectividade plena, mas a honestidade comigo e com os outros.
Ser jornalista não é o sonho da verdade absoluta, é o sonho das estórias que fazem o mundo e as pessoas, com tudo o que essas estórias têm, até o falso, desde que não anunciado como verdadeiro.
De regresso ao camarim...a peça foi publicada na JPR e é lá que vou recordar as conversas...