Monday, August 6, 2007

"E um Sorriso podes dar-me?"

A rua de Sta. Catarina movia-se a passos largos, a roçar as pernas nos sacos de compras, a fervilhar debaixo do Sol quente e no meio do pó insuportável das obras.

Um grupo de jovens “estranhos”, diriam alguns, que usam roupas escuras, penteados irregulares, brincos em partes do corpo menos usuais, que são, enfim, diferentes; ocupam a rua, desenham com talento e tentam vender a sua arte. Nos bancos ali ao lado os velhos observam todos estes movimentos, conversam e olham de soslaio, acompanham o burburinho que vagueia na rua.

Continuo o meu caminho, sempre com o olhar de turista que o Porto ainda me dá e sigo até ao Via Catarina atafulhado de pessoas, mergulhado no barulho das máquinas registadoras, dos cartões de crédito que pagam as sandálias prateadas que uma mulher alta e morena acaba de experimentar.

Não encontrei o que queria e saí de novo, agora com um leve vento a fazer os cabelos bater-me na cara, decidi descer a rua, mas antes, à entrada do “Via”, deliciei-me com os acordes da guitarra daquele rapaz meio rouco que quem por ali passa já conhece. O seu companheiro pede esmolas, com o chapéu, a todos que como eu andam a gastar uns trocos (ou mais). Pergunta-me se não posso dar-lhe uma ajuda. Como já vem sendo habitual sempre que me deparo com uma situação destas, digo que não tenho dinheiro ou que não posso. Afinal, torna-se impossível ajudar quem quer que seja com a quantidade de pessoas que pedem nas ruas do Porto. O rapaz insistiu e eu parei, ainda pensei dar-lhe, mas lembrei-me que na verdade não tinha moedas, repito o “não tenho” e desta vez sou surpreendida com um novo pedido.

“E um sorriso podes dar-me?”

Valeu a pena ter parado, ter olhado para o rapaz em vez de lhe virar a cara. Foi uma sensação estranha, sei que fiquei a olhar para ele, que o meu ritmo cardíaco acelerou perante a surpresa.

“Claro que lhe posso dar um sorriso.”

E sorrimos os dois. Ele voltou-se para outro homem que passava e eu continuei a descer a rua lentamente, ao som daquele sorriso...

Thursday, June 21, 2007

Pelo menos ele canta bem...

Há dias em que apetece enterrar a cabeça na areia...fugir para aquele cantinho de casa onde ninguém nos vê e ninguém nos encontra...pelo menos ele canta bem:)


Friday, June 1, 2007

Era uma grande estrela de papel...

Dia Mundial da Criança....

"Brinquedo"


Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.


Miguel Torga


Monday, May 21, 2007

Sunday, May 20, 2007

Cheira a baunilha e alperce...

Fui lavar as mãos. De repente senti aquele cheiro e lembrei-me da praia, de quando era pequenina, construía castelos na areia e usava aqueles fatos de banho coloridos. Sorri, estava a fazer uma viagem na memória dos cheiros, estava embrenhada naquele perfume a alperce e baunilha, rodeada pelos amigos da colónia de férias.

Isto já me aconteceu mais vezes, com outros cheiros e outras memórias. É estranho, mas é tão bom. E delicio-me sempre quando me acontece.

Primeiro aquele cheiro familiar, que começa a percorrer-me devagarinho até me fazer recordar daquele dia, daquela ocasião. Depois as imagens, os sons, as sensações. Porque há momentos que nos ficam através do cheiro.

Eu associo alperce e baunilha à praia, porque era esse o champô que usava para lavar os cabelos sempre que regressava de um banho de mar. Hoje, esse é o meu cheiro de praia.

Gosto de viajar assim, de sentir que possuo este perfume, que ele ficou para sempre em mim, que o reconheço, que é meu.



Friday, May 18, 2007

"Queima ao Sol no Cortejo"

“E o sol, lá do céu risonho vem beijar…e as capas ondulantes…no peito a vibrar o coração dos estudantes…” Ecoam hinos nas ruas do Porto, as vozes e as cores dão vida ao cortejo que se compõe aos poucos e que desespera por avançar.

Terça-feira, 15h30min, o cortejo inicia o seu percurso. Lado a lado todas as faculdades gritam e festejam. Uns porque participam neste “desfile” pela primeira vez, e anseiam passar a tribuna para deixar de ser caloiros; outros porque chegam ao fim de uma das etapas mais importantes das suas vidas; todos porque são estudantes da Academia do Porto.

Este é um dos dias mais marcantes da semana académica, os estudantes saem à rua e centenas de pessoas “invadem” a baixa do Porto para os ver passar.

À frente os cartolados, seguidos pelos restantes doutores e pelos caloiros, cada um grita com orgulho o nome do seu curso ou faculdade.

Os fitados preenchem os carros alegóricos e comandam as vozes, os “gritos de guerra”, a rivalidade que “em demasia, é muito errada, os estudantes da UP deviam esquecer as guerrilhas em muitas ocasiões e devia haver mais humildade por parte de toda a gente”, diz André Montenegro, caloiro do curso de engenharia informática na FEUP (Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto). E brinca, “por exemplo, lá porque Engenharia é a melhor casa da Academia, não vamos andar a espalhar isso.”

Nem o calor, nem o cansaço, afastam os jovens universitários. As bengalas continuam a erguer-se, a passar de mão em mão e a dar as três pancadinhas da sorte. “Dá muita saudade e nostalgia sentir que esta etapa está a acabar”, diz Jorge Cardoso, finalista do curso de Ciências Farmacêuticas da UP. E para quem “o ano de caloiro foi o melhor, não me importava de repeti-lo porque conheci pessoas novas, uma realidade diferente, extremamente enriquecedora”.

Este é o sentimento partilhado por todos os finalistas.


A tradição do cortejo inicia-se em 1978, quando a Queima das Fitas ressurge no Porto com a designação de Mini-Queima. Esta consistia num desfile pelas ruas da cidade, tal como acontece hoje. No entanto, na altura gerou alguma polémica e contestação em vários quadrantes da sociedade, que a consideraram uma manifestação reaccionária.

A Queima tem sofrido uma progressiva mutação e deixou de ser restrita aos estudantes, para passar a ser uma das maiores festas da cidade do Porto e a maior festa académica do país.

São 17h00 e medicina acaba de passar a tribuna, são os primeiros. A emoção e a alegria são visíveis, os caloiros deixam de o ser. “É uma sensação fantástica, o culminar de um ano muito especial!”, afirma Paulo Pancrácio, estudante da FMUP (Faculdade de Medicina da UP), que acrescenta, “passar a tribuna não é o mais importante, é apenas mais uma das várias actividades que fazemos. O somatório de todas elas é que é realmente importante!”

Seguem-se as Faculdades de Ciências, Engenharia, Letras, Farmácia…O cortejo é longo, é necessário aquecer a voz e manter o fôlego. Os vendedores de cerveja e água fresca aproveitam a oportunidade de negócio. “Olha a cerveja fresquinha! Não quer menina?” A “tia” Maria Antónia já conhece bem o ambiente do cortejo, sabe que a maioria dos estudantes não recusa a sua oferta. O dia é de excessos, o álcool é para muitos “um elemento essencial desta festa.”



Às 2h00 da manhã ouvem-se os últimos estudantes. A tribuna vê passar os alunos da Universidade Fernando Pessoa. “ Doem-me os joelhos, mas estou feliz!”, diz Cátia Bernardes, que frequenta o curso de Terapia da Fala, e que sente orgulho “por ter aguentado o caminho até ao fim.”

Sobram os papéis coloridos, os Aliados adormecem enquanto lhes varrem os vestígios, os estudantes continuam os festejos, agora no queimódromo.

Sonha-se com o próximo cortejo e rasga-se um sorriso.