A menina saiu de casa com o casaco vermelho e a mala castanha, percorreu os caminhos de sempre e não reparou em nada, deixou que a luz do dia se concentrasse apenas em si e no coração que levava apertado. O Porto tornou-se cinzento triste e as pessoas, que outrora o pintaram de muitas cores, apagaram-se com a água da chuva. Reparou em si e já não tinha o sorriso...
Sunday, November 30, 2008
A menina
A menina saiu de casa com o casaco vermelho e a mala castanha, percorreu os caminhos de sempre e não reparou em nada, deixou que a luz do dia se concentrasse apenas em si e no coração que levava apertado. O Porto tornou-se cinzento triste e as pessoas, que outrora o pintaram de muitas cores, apagaram-se com a água da chuva. Reparou em si e já não tinha o sorriso...
Wednesday, October 22, 2008
Nos olhos...as estrelas...
Sentada nos cartões que alguém reservou para os gatos, com as pernas tapadas até aos tornozelos, ela molhava-se...enquanto chovia. Pés de unhas negras, enormes; pés calejados, descalços, molhados. Chamou mais a minha atenção por ser aquela mulher e ter aquele olhar meigo e de loucura; por não pertencer ali mas ter o direito de pertencer ao mundo.
- Obrigada menina. Só estou aqui a fazer horas, à espera que abra o albergue, que agora não me deixam ir para lá.
- Ah....está bem...
- É é...às seis já abrem. São as cinco, agora, não é menina?
- Sim, são as 5h...
- Obrigada.
(avancei)
E gritou-me...
- Obrigada minha menina, obrigada.
Tem cabelo branco, muito sujo e apertado. Tem um lenço preto tingido de manchas e tem aquela praça que se faz deserta, em frente à faculdade. No dia seguinte, quando lhe demos o pão e o leite, chorou. Mas já não chovia.
- Onde dorme? Tem sítio para ficar?
- Durmo numa casa ali em baixo. Já me abrem a porta. Não digam a ninguém meninas.
Não quer camisolas vermelhas, azuis ou amarelas. Quer a cor mais próxima do luto que carrega.
- Esta camisola vou levá-la amanhã à igreja, porque cheira bem.
E agarrou-se a ela com carinho. Foi como se o Sol abrisse por entre as nuvens agitado pela luz daquele sorriso, foi como se o mundo fosse de cores suaves e sensações quentes. Foi como se fosse perfeito...
Gosto dela, velhinha deambulante.
Mas não gosto de imaginá-la sozinha na praça, no lugar dos gatos...Pelo menos não chove e guardadas nos olhos fechados tem as estrelas...
Sunday, October 12, 2008
O que há em mim é sobretudo cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos
Wednesday, October 8, 2008
Parte I : Perdi-me no cinzento e reparei...
Há muito que não se sentia assim, mas em frente da secretária de madeira escura viu-se obrigada a mudar de sentido. Cabelo apanhado, ar impenetrável e confiante, fato cinzento escuro de saia justa por baixo do joelho, passo firme em cima dos saltos finos de uns sapatos únicos, brilhantes; estão entre os seus preferidos na prateleira do meio do armário onde guarda mais de 100...Multipliquem-nos por muitos dias, muitas estórias, muitos andares. Haverá, portanto, uns sapatos nervosos, outros ansiosos, orgulhosos, entusiasmados, cansados, irrequietos e calmos, tristes e felizes. Não há sapatos no armário que lhe recordem aquela manhã, sentiu-a mais à flor da pele por isso, e à flor da pele tem hoje a vontade de descalçar novamente os sapatos. Mas tem a reunião do meio dia em jeito de almoço com o resto da equipa da empresa e tem uma nova manhã, de botas castanhas...
Hum...nem imaginas o que vou fazer com o meu casaco azul escuro e apertado na cinta, cabelo apanhado e sexy, botas altas castanhas...São 10h30 da manhã, vou em direcção à foz. E isto agrada-me no começo do dia.
Deixa-me, antes, aproveitar para te contar que parei num Banco para depositar cheques, nos aliados, e deu-me uma súbita vontade de percorrê-los pelo centro, a pé. Já olhaste os aliados de baixo? Já encheste os olhos, cá do fundo em direcção à Câmara? Já não os olhava assim há algum tempo. Perdi-me no cinzento e reparei. Sozinho num banco, um livro de capa branca e marcador prateado. Prendeu-me a ele e trouxe-o comigo. Mas depois conto-te o resto, já estou atrasada...
Vou seduzi-lo, a estratégia é entrar na pastelaria, pedir um daqueles croissants gulosos e juntar-lhe aquele meu ar deliciado, que sei que seduz. E ele já está a olhar para mim mais derretido que a manteiga. Caminho escorregadio, para ele. Dentro de poucos segundos vou saber tudo o que quero. Os meus olhos castanhos de mel estão agarrados aos verdes dele. Falo descontraidamente enquanto ele tenta acompanhar o meu ritmo alucinante...foi o que ele disse que eu tinha. Acabei de dar uma daquelas gargalhadas...Ritmo alucinante? Gosto de acordar cedo e ter muita coisa para fazer, de me deitar tarde a pensar na agitação do dia seguinte, de correr de um lado para o outro, de ter meia hora para almoçar, de chegar em cima da hora mas a tempo...talvez ligeiramente alucinante...
E já está. Acabou de me revelar tudo. Um beijo e um olhar de despedida, daqueles que se arrastam (nele) e deixam vontade de mais. A conquista faz-se devagar e é tanto mais forte quanto mais forte é a vontade do outro em ser conquistado. Ele tem pressa, eu tenho vagar. Funciona assim, porque eu quero.
- Luísa, posso ligar-te mais tarde?
(Sorri...)
Tuesday, September 23, 2008
Sopro...
O Porto volta a reconstruir-se nos meus olhos, e depois da ausência das férias volta a surpreender-me. Nunca um lugar me tratou assim, nunca um lugar me foi trazendo tanto com tão pouco, ou tão simples...
E depois de uma busca de livros na Biblioteca Almeida Garret, na companhia da Mafalda e da Ina, e do passeio com conversa agradável naquele jardim do Palácio de Cristal, veio ao nosso encontro a Sara, velhinha de cerca de 80 anos...julgo eu.
É como se o mundo soprasse na minha direcção devagarinho. Porque nem a entrada no rosa e amarelo queimado da Rota dos Chás, nem o chá ou a tarte de chocolate e framboesa me tinham soltado o sorriso, como já tantas vezes o haviam feito. Porque há, quase sempre, nesta atmosfera, na sonoridade que a preenche e no cheiro que emana algo que me inebria e absorve, que me atira o olhar para a paz do vazio enquanto ao mesmo tempo me desperta intensamente os sentidos. Quem já lá esteve é bem capaz de me compreender, pelo menos em parte. E lembro-me da primeira vez...daquela noite de teatro (em que vi "Aquário") no museu do carro eléctrico do Porto, da chuva que me fez correr e quase cair na rua, que detestei que me molhasse mas que adorei ver molhar quando me sentei e senti ali...cheia da estória das personagens, ainda envolvida pelo estalar das palmas e de repente naquele calor, na luz trépida das velas, no perfume doce do meu romântico “Dim sum chá”. Depois dessa noite decidi apresentar o espaço a todos os que achei merecerem partilhá-lo comigo, faltam alguns é certo...não falta a minha vontade de os ver saboreá-lo comigo.
Mas naquele dia o coração tinha apertado tanto que reprimiu o que se faz, quase sempre, de mim ali...e foi preciso mais, foi preciso a Sara:
- Somos nós que construímos a nossa felicidade meninas...
E a Sara só queria saber se havia uma exposição nova (e gratuita) no Pavilhão Rosa Mota, uma daquelas que sabe bem porque nos obriga a reparar demasiado, com medo de perder um pedaço de vida; uma daquelas que nos alimenta de beleza, arte, conhecimento; uma das que vale a pena, não por ser gratuita (embora isso ajude) mas porque nos movimenta. Queria tão pouco a Sara...e deu-nos tanto. Deu-me o Sol que brilhava nesse dia, deu-me as folhas secas e torradas de Outono a aquecerem a terra, deu-me o transparente da água do “lago”, os patos e o seu deslizar suave, os livros que requisitei e o desejo de perscrutá-los e de me embrenhar neles...e deu-me aquela minha vontade eterna de sonhar. Deu-me as mãos e o carinho e adivinhou o tanto que eu precisava deles.
Se soubesse como ajudou a construir a minha felicidade...Pedi ao mundo que soprasse na direcção dela...devagarinho.
